2003 FUNDAÇÃO CARGALEIRO

POLO III DA FUNDAÇÃO DO CARGALEIRO EM VILA VELHA DE RÓDÃO

Fui convidado pela Fundação Cargaleiro para elaborar o projecto do Polo III, em Vila Velha de Ródão. A área de intervenção situa-se na Quinta da Torre Velha, rua de Santo António, construída no século XIX.
 Com uma área de terreno de aproximadamente 6700 m2 , o conjunto de edifícios preexistentes apresentam uma área de implantação de aproximadamente 427 m2 e encontra-se actualmente em ruína. As fachadas estabelecem com a rua e com os edifícios adjacentes uma relação de unidade urbana e desde logo se decidiu preserva-las como parte integrante da história da Vila. Levada ao limite esta ideia e ainda pela dificuldade de fazer um levantamento histórico preciso do desenho das fachadas, aliado à fragilidade da estrutura das mesmas, pequenas pedras irregulares de xisto, (material por excelência da região) consolidadas com um reboco da época, seria difícil completar ou restaurar as ditas fachadas com êxito. As aberturas preexistentes, nomeadamente as de alguns pisos superiores, condicionariam também o interior do edifício com o seu novo programa. Por estas razões decidiu-se manter a fachada como actualmente se encontra, enquadrando-a no novo complexo arquitectónico permanecendo assim como registo Arqueológico da Arquitectura.
O programa revela desde sempre um interesse particular na concepção de um centro de formação neste polo, de actividades ligadas às culturas do patchwork, tecelagem e olaria tradicionais nesta região, mas também formação nas áreas de desenho e pintura.
A convicção na importância deste polo pedagógico para esta região, aliada a uma consciência económica realista subjacente à sua concretização, levou a estabelecer alguns ajustamentos no programa, procurando racionaliza-lo ao limite, de forma a optimizar custos, sem se perder a qualidade e a funcionalidade inerentes e definidas no programa inicial. Para tal reduziram-se áreas, tomaram-se novas opções construtivas e de acabamentos. Fizeram-se ainda adequações ao nível da organização espacial de forma a unificar as partes com o objectivo de reduzir áreas de circulação e superfícies de isolamentos.
O programa definitivo é constituído por:
- A entrada nobre, para o público, com grande foyer de distribuição, recepção, bilheteira, bengaleiro, loja, sanitários públicos e uma cafetaria.
- Centro de formação constituído por secretaria, biblioteca e um conjunto de salas munidas de banca e água: sala de patchwork; sala de tecelagem; sala de olaria; sala de desenho e pintura e ainda uma sala grande, polivalente. Todas elas de acesso directo ao jardim e ampla iluminação natural, orientada a Norte.
- Sala de exposições temporárias servida por um cais de carga e descarga  com acesso directo, sala de recepção dos objectos, monta-cargas e sala de montagem de exposições.
- Faz parte do programa ainda uma sala de reuniões, gabinete do conservador, armazém, arrumos, sanitários e vestiários de serviço e ainda uma residência composta por uma sala, kitchnet, um quarto, sanitário, e ainda um segundo quarto assotado. Todas estes espaços têm as suas áreas discriminadas em anexo e com as respectivas circulações resultam numa área bruta de 1600 m2.
Os edifícios preexistentes, não tinham área suficiente nem  configuração para incorporar o programa na sua totalidade. Assim, os espaços de maior escala: sala de exposições temporárias e salas de formação, tiveram que se expandir para o jardim.
Considerando que a área exterior tem uma escala equilibrada para o conjunto edificado, levanta-se o problema de ampliar a edificação. Depois do estudo morfológico do terreno, curvas de nível etc., surge como ideia aproveitar e optimizar os pequenos desníveis planificando o jardim, o que lhe confere uma melhor utilização, circulação e estabilidade. Estes espaços serão assim organizados à cota original inferior, por baixo do novo jardim.  O problema está imediatamente resolvido nas salas de formação, pois 3 metros de pé direito é suficiente para o seu bom funcionamento; já a sala de exposições temporárias necessita em pelo menos 50 % da sua área, de pés direitos bastante superiores. Estas volumetrias acrescidas emergem do tabuleiro verde e surgem no jardim como pavilhões ou caramanchões isolados, fragmentos que funcionam também como lanternins, conferindo luz natural à sala e permitindo o apoio técnico necessário a limpezas e AVACS. Estes elementos criam no exterior, tensões e dinâmicas, estabelecendo um dialogo entre si, com as construções preexistentes e com a natureza, através de variações de escala, diferentes materiais, ritmos, opacidades e transparências, orientações e sentidos, texturas, etc., resultando como partes integrantes de um todo coerente e com unidade. Surgem no jardim como elementos figurativos em movimento que emergem do edifício, contrapondo o velho e o novo, registando o antigo e o moderno.
Existe também subjacente à concepção deste trabalho uma preocupação no que respeita à interacção e inter-relações entre os espaços bem como os percursos subjacentes.
No percurso de visita às exposições e salas de formação, desde a entrada, o publico é conduzido por espaços que procuram exaltar os sentidos através de variações de escala, correcções de perspectivas, ritmos e tensões criados por horizontalidades, verticalidades e variações de luz;  esta preparação é fundamental à visita de um centro de arte. Se existe uma compensação ou desaceleração da perspectiva no percurso de entrada, o contrário acontece no percurso para a saída.
A entrada principal, publica, situa-se na área do edifício preexistente com a cota de soleira inferior, correspondente à fachada que apresenta o vão de porta exterior mais nobre. Proporciona a melhor leitura das fachadas do edifício apartir do local de estacionamento automóvel na rua. Desta forma favorece-se também a ligação à cota principal do novo edifício, onde se situam as salas de formação, a sala de exposições temporárias e zona social associada à cafetaria, através de uma rampa suave inserida num amplo espaço que aumenta a sua escala através do percurso.
Na porta de vão exterior de cota superior de soleira, correspondente à casa preexistente, organiza-se um hall de distribuição independente a quatro áreas de serviço: loja, com montra para a rua e fácil acesso ao foyer social; gabinete do conservador e sala de reuniões; residência; e entrada de serviços bem como de todos os funcionários.
Apartir de outra entrada situada numa rua secundária, mas com escala para receber viaturas de grande porte, existe ainda um cais de cargas e descargas que estabelece ligação com a sala de exposições temporárias através de uma sala de recepção dos objectos, monta-cargas e sala de montagem de exposições.
O sistema construtivo fundamenta-se numa estrutura de paredes em betão armado. Estas paredes consolidam também eficazmente a fachada preexistente. Sem soluções estruturais mistas é  possível optimizar custos, aspecto fundamental à execução deste projecto como já acima referimos. Neste sentido numa perspectiva minimalista, pretende-se tirar expressividade da própria estrutura despojando-a de acabamentos desnecessários.
A madeira, o vidro, o xisto (material característico desta região), o azulejo e o zinco, são outros materiais que se propõe para este imóvel principalmente no que respeita a revestimentos exteriores.  
A adequação ao terreno optimiza a gestão enérgica do edifício protegendo-o através de um natural isolamento térmico, reduzindo custos também nesta matéria.
Pretende-se com esta intervenção manter o maior número possível de árvores existentes no jardim, propondo futuramente a plantação de outras, de forma a enquadrar o novo.
Os arranjos exteriores centrar-se-ão também na concepção de muros limite com a escala e linguagem dos preexistentes.

 

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