2001 MUSEU TOMIHIRO

CONCURSO PARA MUSEU TOMIHIRO NO JAPÃO

Este exercício tem por base a arte como construção ou materialização das emoções e do afecto. Trata-se de uma reflexão sobre a vida e a arte como meio da sua expressão; das relações entre os humanos: do milagre das novas vidas como produto de uma constante transformação e desenvolvimento, na adaptação às sempre novas circunstâncias.
Num início de século e milénio – o “Milénio da Humanidade”, somos naturalmente remetidos para a procura de novos caminhos, novas inspirações – a Natureza. Mas porquê ir beber à sua forma mais primitiva e não à sua expressão contemporânea, mais desenvolvida,...a vida humana?...
Entrei numa dimensão infinita, onde nada é definitivo, onde se funde o passado, o agora e o amanhã... Procurei buscar o princípio no fim: a Terra, a Água e a Vida na sua expressão de continuidade. O lado emocional e afectivo humano, o seu interior, o lado espiritual, a alma e não apenas o seu lado material, físico e estrutural.
Traduzi essa pesquisa numa linguagem figurativa de sensualidade, de transformação através de emoção, movimento, desejo, insatisfação, inquietação, impulso, fusão, desde o lado obscuro, caótico, instintivo, animal; à inteligência emocional, ao etéreo, à ordem.
Paralelamente à transferência conceito – forma, surgia o anteriormente referido momento de colocar a “Vida” na “Terra” e na “Água”. A relação com o lugar surgiu com a mesma naturalidade, como que fruto sintéctico da complexidade da relação entre homem/ mulher.
O museu impanta-se de paralelamente à estrada, seguindo o seu alinhamento e desenvolvendo-se até à escarpa, sobre a lagoa, tornando-se o elemento de ligação e convivência entre todas as entidades presentes no terreno. Com o acesso assegurado através da estrada principal, a entrada no museu faz-se através de uma praceta. Uma rampa parte deste limite em direcção ao alçado oposto onde se desenvolve a área de serviços do museu.
Os dois corpos fundem-se de modo a criar um discurso não só a nível interior como também em atenção ao exterior. A um alçado fechado, em relação à entrada a partir da rua, opõem – se uma fachada aberta à paisagem da lagoa. Um espaço de contemplação através de algumas das mais importantes funções que se desenrolam no museu.
A luz não é aleatória. Os corpos criam jogos de introversão/ extroversão de modo a que as suas aberturas deixem entrar a luz indicada a cada uma das diversas actividades que se desenrolam num único interior. Assim a luz que penetra nas áreas de exposição é sobretudo norte e nascente. Para nascente se orientam igualmente o auditório, cafetaria eescritórios. A sul e poente organiza-se a entrada, acompanhando os movimentos ascendentes e descendentes dos visitantes, movimentos que pelas sombras acabam por animar os diferentes espaços de exposições.
O programa do museu é resultante de todas estas condicionantes e complexidades. O percurso ao longo da estrada começa a desvendar as formas com as quais tomamos franco e próximo contacto a partir da já referida praceta de entrada. É a partir deste espaço que tomamos o primeiro contacto com o interior do edifício. À esquerda apresenta-se-nos uma oposição entre massa e vazio. À opacidade do compartimento para gestão do abastecimento de água, luz e P.T., opõem-se a transparência da pequena loja já pertencente à intersecção dos corpos. Em frente, a transparência do alçado anuncia um sistema de rampas, que comunica ao visitante percursos e diferentes níveis do museu. Também deste espaço se percebe através do jogo dos materiais – reboco branco em cima e granito no embasamento -  a sobreposição de dois corpos. O granito estende-se igualmente no chão, transformando-se em mármore a partir do interior.
A entrada não é axial, para que o atrio, centro da composição não seja directamente revelado. Pretendeu-se iniciar o “percurso de exposição”, logo a partir da entrada, do próprio espaço arquitectónico. Somos conduzidos a uma pequena cavidade no alçado, expaço semi-exterior, que nos faz entrar no edifício.
À esquerda, a já anunciada loja; à direita surge-nos um espaço que percebemos como uníca forma chegarmos ao interior. Neste corredor escultórico, encontramos o balcão, bilheteira agregado a um espaço de guarda-roupa. Este complexo funciona biunivocamente quer para quem chega ao museu, quer para quem já está no espaço do átrio. Antes de chegarmos a esse grande espaço um primeiro contacto com a paisagem, com a lagoa. Termina assim a preparação do espectador para a viviência do espaço.
Um lanternim central, reitera a importância do átrio, espaço que liga todos os pisos e funções. Através das rampas acedemos ao meio piso inferior. Aqui se desenvolve o auditório, em duplo pé direito, que desce até à cave do edifício. O pavimento é de madeira conferindo ao espaço uma sençação de conforto e definindo os seus limites em relação ao resto do museu, de pavimento de mármore. Neste piso estão igualmente posicionados espaços de arrumo e depósito, com acesso automóvel e ainda a área de trabalho, e gestão do museu, igualmente em madeira no pavimento. Desde a cave até ao ultimo piso do edifício estão previstos três módulos de acessos verticais, sensivelmente equidistantes que tornam possível um funcionamento intercomunicante de todas as partes do museu.
Se, partindo do átrio, subirmos ao primeiro meio piso teremos acesso à sala de exposições temporárias, que se desenvolve com um jogo de diferentes, alturas da cobertura, captando-se diferentes intensidades de luz, sempre indirecta.
Todas as paredes são brancas, enriquecidas pela mutabilidade da luz.
Meio piso acima encontra-se o espaço do espólio permanente. Ao não subdividí-lo em compartimentos estanques pretendemos tornar o museu o mais comunicante e fluído possível, possibilitando a maior polivalência e mutabilidade possíveis. A culminar este percurso e sempre colocando o edíficio e a envolvente em diálogo aparece uma pequena cafetaria apoiada por uma cozinha e acessos de serviço. Mais uma vez o fim se confunde com o princípio: voltamos ao ponto de chegada, à Natureza, vista através da síntese da fusão de dois corpos.
Estruturalmente o edifício compõem-se de elementos resistentes de betão armado, ou mistos de aço e betão.  O museu resulta de um interligação de planos verticais e horizontais formando malhas quase ortogonais onde se apoiam placas, por vezes com vãos de dimensões consideráveis. Os referidos planos verticais serão paredes ou pilares de betão, tendo em conta que os últimos poderão ser reforçados com aço envolvido de betão para que se assegure uma mesma secção em todo o edifício.
No piso parcialmente enterrado, as lages serão maciças de betão. No interior, apoiar-se-ão em pilares; no exterior, em paredes de betão, permitindo assim uma grande estanqueidade.

 

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